A ÁGUIA E A GALINHA

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A ÁGUIA E A GALINHA

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quarta-feira, 23 de junho de 2010




O RELATO DAS VÍTIMAS

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Apesar dos números e estatísticas falarem por si mesmos, frequentemente eles não são suficientes para sensibilizar governos e profissionais que lidam com casos e políticas públicas relacionadas à VCM.

No Brasil, infelizmente, ainda vale a máxima “em briga de marido e mulher, ninguém mete a colher”. Pensemos, então, que a mulher pode ser uma de nossas amigas ou parentes - irmãs, filhas, mães, pessoas que amamos. Se uma delas estivesse enfrentando uma situação de violência doméstica, nós nos calaríamos? Diríamos a ela que é sua culpa, que não há nada a fazer, ou a ajudaríamos a procurar socorro e abrigo, seja numa Casa Abrigo, numa DEAM, ou em algum outro órgão público? E se a mulher vítima de violência estivesse na rua, sendo espancada por seu parceiro aos olhos de todos, sem nenhum parente ou amigo para auxilia-la naquele momento? Passaríamos ao largo, fingindo que esta é uma cena urbana normal, pois é normal que uma mulher apanhe?

Se os números e a possibilidade de que a VCM possa ocorrer conosco ou com mulheres que amamos não é suficiente para sensibilizar, deixemos então que as próprias vítimas falem por si em depoimentos e histórias verídicas:

· Depoimento registrado em uma Delegacia Especial de Atendimento à Mulher (DEAM), Rio de Janeiro, recolhido por Ana Maria Gonçalves em seu livro “Violência Contra Mulheres - relatos dramáticos de fatos verídicos” (pp 33-36).

“Aquele desgraçado arrancou meus dentes porque tem ciúmes de mim, do meu sorriso. Eu cuidava tanto dos meus dentes. Eram lindos. Agora ele arrancou-os fora. Antes ele tivesse me batido como das outras vezes. Cansei de levar tapa na cara. E sempre pelo mesmo motivo: o maldito ciúme. Ciúmes dos meus amigos, da minha família, de tudo. Eu nunca pensei sequer em trai-lo. Eu adorava ele... Ontem à noite fomos ao aniversário de 15 anos de uma sobrinha dele. Ates de sairmos de casa, quando estava me arrumando, ele já começou com as ameaças. Na festa nós dançamos. Ele parecia normal. Estava até alegre. Eu dancei com um dos irmãos dele e com um primo. Percebi que ele não gostou. Mas não tinha nada de mais. Eram pessoas da família dele. Ele também dançou com outras mulheres. de repente ele me pegou pelo braço e foi me empurrando, quase me arrastando até o carro. As pessoas viram, mas ninguém falou nada. Ninguém fez nada. No caminho para casa ele ia me chamando de vagabunda, de puta, de oferecida. De vez em quando ele parava o carro e me batia. Sempre no rosto. Em casa ele continuou me batendo e me ofendendo.

Ele é muito ciumento, mas nossas brigas nunca passavam de palavras agressivas e alguns tapas, da parte dele é claro. Depois que ele me humilhava bastante, arrependia-se e me pedia perdão. Chegava a chorar. Como eu gostava muito dele, acabava perdoando e fazendo as pazes. Eu disse que se ele fizesse aquilo novamente, eu iria embora. Chegou a ajoelhar-se na minha frente. Depois, na cama, queria fazer amor. Eu não quis. Ele não conseguia dormir e eu também não. (...) Tomou ou fez que tomou um comprimido [sedativo] e me ofereceu um. Não quis contraria-lo e também queria dormir. Acabei tomando. Logo em seguida adormeci.

Eu lembro dele montado em cima de mim, da sufocação que sentia, da vontade de levantar, do esforço para permanecer acordada e da dor quando ele arrancou meus dentes. Eu queria sair, gritar mas não tinha forças. As pernas dele imprensaram meus ombros. Ele estava com todo o peso no meu peito. Ele apertava meu nariz e me forçava a abrir a boca. Eu podia ouvir a voz dele dizendo ‘vai doer mas é para o nosso bem, para a nossa felicidade, a dor vai passar logo, eu vou cuidar de você’”.



· História retirado da publicação “Forced Mariage” - an abuse of human rights one year after “A Choice by Right”. Interim Report. July 2001; Southall Black Sisters (p 4).

“Rukshana Naz, uma mulher asiática de 19 anos, morreu na Inglaterra em 1998. Seu irmão estrangulou-a ritualisticamente com uma liga, enquanto sua mãe a puxava pelos pés. A mãe disse ‘estava escrito em seu destino’. No julgamento, o irmão alegou provocação, fazendo uma defesa cultural e dizendo que o assassinato ocorreu em nome da honra. Rukshana foi morta por ter envergonhado sua família recusando-se a permanecer em um casamento forçado com um primo, conduzido no Paquistão quando ela tinha 15 anos. Ela tinha a intenção de retornar para o seu amante, de quem estava grávida quando morreu. Rukshana havia se reconciliado com sua mãe, que ela acreditava ter aceitado sua decisão de deixar o marido. Rukshana pensou estar segura. Ela confiou em sua mãe. E então foi assassinada.”

· Casos relatados na publicação “Crime in Dar es Salaam – results of a city victim survey”. 2001, UNCHS – Habitat and Institute for Security Studies. ROBERTSHAW, Rory; LOUW, Antoinette et MTANI, Anna.

“ Meu marido tirou dinheiro de nossa conta conjunta e construiu uma casa para sua concubina” - mulher de 40 anos em depoimento.

“Ele me trancou no quarto e segurou uma faca ameaçando me matar” - mulher de 26 anos em depoimento.

“ Numa manhã, enquanto nos preparávamos para ir para o trabalho houve um mal-entendido ... ele me bateu ... inconsciente. Eu fiquei ... no hospital por 30 dias” - mulher de 37 anos.

“ Eu fui estuprada por seis homens da Força de Defesa Popular da Tanzania depois de beber com eles e me recusar a fazer amor ... com o seu superior” - mulher de 26 anos.



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